Continuemos

Em um tempo estranho qual a vida parece ser tão desprovida de direitos e valorização do que pode ser vivido, sinto como se estivéssemos perdendo alguns prazeres e vivências que são únicas em nossas vidas.

A ilusão necessária que algo pode ser modificado, que algumas questões que nos rodeiam e nos entristecem poderiam ser abolidas, varridas e disseminadas passaram a tomar vida, assim, roubaram mais uma vez aquela deliciosa ilusão de que tudo caminhava pra dar certo. Quase deu certo, como se o sorriso estivesse anunciado e alegria pudesse fazer festa dentro e fora da gente, no entanto, mas uma vez tudo muda, somos arrastados por palavras negacionista, estamos com nossas sonhos presos, na espera que tudo que nos acorrenta passe.

Sabemos que existe poucas chances, mas elas ainda existem, espero que sejamos fortes, que possamos lutar, que apesar do cansaço, das pestes, dos vírus e do atraso nefasto que nos assola.

E apesar do fraqueza e das dores que esse tempo causa em minha vida, apesar do fracasso em algumas tentativas, apesar da fragilidade física que me acomete, deixo claro que sou uma guerreira numa guerra cotidiana com vitórias, percas sofridas e com uma única certeza: vai passar.

Porque sempre foi assim. Porque assim será. É tudo isso que está matando nossos sonhos, que está nos causando dor nos olhos, pisando em nossos estômago, isso tudo vai passar.

E meus olhos cansados, meu corpo febril e meus cabelos desgrenhados caminharam ao sol e ao vento com um único desejo da doce ilusão de viver muito mais tempo com a necessidade de sorrir e ser feliz.

Posso dizer, que mesmo quando tudo parece ser terrível, quando tudo parece ser ruim e sem gosto o que nos salva é poder continuar. Continuemos.


“Agora Sim”

O tempo passou, ás vezes uma sensação de tempo acabado, finalizado e talvez por isso sinto que não tenho tempo para duvidar do meu amor, do meu gosto, do meu querer.

Eu existo com um monte de socos e pancadas da vida, eu existo cheia de “Agora Não” jogado na minha cara.

Eu existo apesar das esperas. Eu existo por acreditar que “Agora Sim” porque não vivo no tempo que estar pra chegar, não vivo perdida no tempo que ficou amontoado, eu vivo nesse exato momento com todas os meus receios, minhas guerras, lágrimas e procura de sorrisos. Muitas vezes empurrando, tirando o cinismo de outras pessoas da frente, gritando, ás vezes sussurrando, quebrando o que alguém diz e também me quebrando.

Eu vivo amando tudo que acho bonito, tudo que ilumina meus olhos, parindo lua e sol na tentativa de ser o que sou antes que alguém diga como devo ser.

Eu vivo mesmo perante a negação exposta e mesmo quando tenho medo eu vivo, afinal nem sempre há tempo para esperar pela coragem.


Avante

Existem dias que são pesados.

demais para carregarmos, a lágrima fica no ar, tudo fica muito difícil. O sorriso dar lugar ao choro, no entanto o mesmo riso volta ao seu lugar quando lembramos que seja como for precisamos com maestria continuar.

Em volta de tantas questões ardilosas e de tantas tempestades é preciso captar o que há na superfície e arrancar o que há na profundeza, buscar o equilíbrio nas ações, enfrentar tudo com leveza e dignidade.

Eu sempre digo que não tiro o mérito da raiva diante da hostilidade, humilhações e desigualdade que milhares de pessoas passam diariamente, mas exatamente nesse tempo tão sombrio aprendi a acender fogueiras dentro de mim, aprendi a acolher minhas dores.

E assim me sinto água, como disse para alguém muito especial e que acalma minhas dores, tal como num provérbio africano “A água sempre descobre um meio”.

Desse jeito, aprendemos com nossos passos, quais vieram de longe a sermos fortes e resilientes, porquê mesmo quando caímos não ficamos no mesmo lugar, no mínimo um passo à frente.

Avante sempre

Com amor e muito cuidado


Lugar Que Habito

A vida passa depressa e nosso corpo em movimento constante cheio de mudanças, de flagelos, de percas e construção e reconstrução diante de tudo que nos move, diante de todos os espaços que queremos ocupar e principalmente sentir.

Como mulher jamais desejei viver o padrão, seja qual for, o diálogo com meu corpo é feito a partir de posturas que adotei e que me sustentam até aqui.

E lembro todos movimentos que o moldaram. O corpo que abriga, que produz alimento, que se fez morada e entrega. Meu corpo que ao passar dos anos busca novos espaços, reivindicações de existência.

O corpo materno, um corpo de uma mulher negra, um corpo cinquentenário, o corpo que faz o caminho, o meu corpo. Este que sente, que grita, que sangra, que silencia, que deseja, que se faz presente mesmo quando acreditam que vive na invisibilidade.

Meu corpo é minha existência. Minha casa, minha estrada, minha liberdade. Minha dança, minha escrita, minha voz no mundo.


Imensidão

Será que o amor tem lar?

Para o Amor existe rima ou métrica?

Será o amor igual as ondas do mar? Ou quem sabe a embriaguez alucinada na mesa do bar?

Será o Amor igual a taças de cristais com rótulos em caixas “Cuidado Material Frágil”?

Talvez o Amor seja pura composição, criação em um violão no amanhecer ou numa dessas madrugadas vazias com o peito cheio de vontade.

Quem sabe o amor esteja exatamente no encontro do olhar, o que é preciso ver, como vida que brilha, como luz na escuridão e quando ocorre o encontro, de repente podemos fechar os olhos, ficarmos em silêncio, sem palavras, porque o amor depois de ser visto ele une todos os sentidos e passa a viver sem justificativas, passa a viver na imensidão.